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LUTO(S)

O "S" indica que nessa vida muitas coisas morrem: lugares, relacionamentos, fases e pessoas mesmo. Por isso o luto em psicanálise é um tema recorrente. Abordado desde a primeira vez que uma pessoa entra no consultório e senta na poltrona ainda de frente para o analista para fazer sua primeira entrevista. Lidar com perdas não têm receita: cada um age e reage à sua maneira diante de algo que  se foi pra sempre. E normalmente a gente se desespera, não quer deixar ir, se agarra ao passado. Não fazer o luto é isso: manter-se apegado a uma lembrança, a um fantasma. São muitos lutos desde a infância: o desmame, seja do peito ou da mamadeira, a chegada de um irmão ou uma irmã que tira nosso trono do preferido da mamãe e do papai, a entrada na vida escolar onde a pessoa que nos cuida não fica mais full time com a gente, a adolescência,  o abandono desta para entrar na vida adulta e por aí vai. A quantidade e a intensidade de lutos que se faz ou se precisa fazer é de cada um, não...

FELICIDADE COMO AFRONTA

"A grama do vizinho é sempre mais verde". A gente acredita nessa frase muito mais do que pensa e vive isso como filosofia de vida mesmo sem se dar conta. A verdade é que, muitas vezes, a felicidade do outro nos incomoda, dá um certo desconforto. Um sorriso amarelo. Por quê? Simples: a gente sente inveja. A era das redes sociais elevou isso à milionésima potência: festival de selfies, fotos de cenários paradisíacos, festas e diversão. Muita coisa fabricada, mas muita coisa real também. Porque nesse mundão de meu Deus também existe gente feliz, que se aceita, que tem um relacionamento amoroso legal, ou uma carreira maneira, é bom filho e filha, bom irmão e irmã, bom pai e boa mãe. Mas a gente projeta nossa rejeição e falta de amor narcísico e acha impossível "alguém ser feliz assim", como se felicidade fosse ausência de problemas ou contas a pagar. Isso todo mundo tem, e tem gente que consegue ser feliz apesar da vida. Se a felicidade do colega parece uma afront...

"MAS EU CRIEI TODO MUNDO IGUAL..."

Sinto em te dar uma notícia: não criou não. Essa nossa justificativa defensiva só aparece na hora que o couro come. Na hora que dá ruim. Tipo aquela outra frase típica de pai e mãe: "olha o que SEU filho fez"... como se a humanidade gerasse bebês só por um sexo. Ninguém que tenha mais de um filho consegue criar todo mundo do mesmo jeito ou amar todo mundo igual, pelo simples fato de cada um é um. Cada filho tem características próprias, personalidade, trejeitos, intelecto... cada um tem um tempo de assimilar, de processar, de elaborar. E, desde recém-nascidos, ensinamos comandos a quem nos cuida; os adultos costumam pensar que só eles ensinam. Ledo engano. Mesmo para quem é filho único tem a frase "não te criei pra isso", "não foi isso que eu te ensinei", que também vale para irmãos. Podemos dizer que a educação tem o nível macro, dos valores e princípios gerais de cada família, de cada núcleo, aqueles que são as bases. E tem o nível micro, onde cada u...

AUTO EXÍLIO EMOCIONAL

Apesar do nome parecer rebuscado, esse é nada mais do que o momento que nos recolhemos em busca de nós mesmos e daquilo que somos ou mascaramos. A palavra exílio na nossa língua portuguesa é conhecida pela conotação negativa, pois tem a ver com sair do próprio país por conta própria ou obrigado por questões políticas. Mas não deixa de Ter um pouco a ver com isso o auto exílio emocional: por questões de não conseguimos tantas vezes lidar com situações e pessoas que fazem brotar nosso lado vil e encrenqueiro, a gente pode escolher se retirar. E esse se retirar pode ser um comentário que não se faz na rede social na hora em que a discussão esquenta, pode ser sair de perto de uma conversa tomada por fofocas e intrigas, e pode ser um período em que a gente se retira fisicamente de relacionamentos, sejam familiares ou de amizade ou amorosos pelo simples fato de que temos esse direito. O mundo atual das redes sociais não admite que a gente suma sob pena de sermos  rapidamente esquecid...

MINHA PAZ

não me venha com coordenadas latitudes e meridianos há muito fui condenada com olhares e atitudes de seres levianos não me venha com grafos protótipos e conselhos o que vejo não é fraco quando me projeto no espelho não me venha com receitas modos de ser e de fazer minha alma já está feita com o que ela quis escrever não me venha com modelos e prazos inconsistentes não sou afeita a fazê-los sob pena de trair meu inconsciente ele não tem tempo, passado ou presente apenas imensidão de apelos que me fazem da alma um acidentado continente deixe minha estrada em paz e siga a sua em frente Crica Viegas

RELACIONAMENTO E REDES SOCIAIS

A era da internet chegou, é um fato. Não tem como voltar ao que o mundo era antes disso. Mas o ser humano ainda é feito de afeto e não de chip, e temos que ter cuidado porque podemos estar lidando com nossos relacionamentos como se o outro fosse só um perfil do Facebook ou do Instagram. A rede social encurtou distâncias, lógico, e já reencontramos muita gente que fez a nossa vida melhor em nossos tempos passados e aquela alegria boa volta a cada conversa. Esses reencontros são fantásticos e cheios de emoção. Mas cada um continua sua vida na sua outra cidade ou país. Ponto. Agora, parece que estamos usando a mesma lógica em relacionamentos próximos, e até nos muito próximos. Casais fazendo DR via Whatsapp, pais que só conseguem falar com filho via internet, eles na sala e o filho no quarto. Casais sentados no sofá conversando via celular. O que está acontecendo com a gente?  Vamos tratar assuntos pessoais e delicados sem o cara a cara porque estamos com preguiça ou sem corage...

AMOR E DEPENDÊNCIA

Dependência tem se tornado uma palavra de cunho pejorativo na sociedade em que vivemos. Na era da autonomia e de pensamentos como "eu me basto", "eu me banco", "não devo nada a ninguém", parece que estamos nos perdendo em algumas coisas. Encaramos a dependência como algo doentio, e ela pode ser mesmo. Só que não é só isso. Lacan disse que "amar é dar o que não se têm a quem não o quer", frase difícil e que rende simpósios até hoje. Mas amar é isso: dar ao outro a minha falta e, com isso, esperar desse outro que essa falta retorne para mim em amor. Só que o outro também é um ser com um imenso buraco no ser, e se relacionar é tentar equilibrar essas expectativas. Amar também é depender em alguma medida. Amamos nossa família; dependemos de estar bem em família para sermos felizes. Amamos nossos filhos; se eles estão tristes a nossa alegria não é completa. Amamos nosso par e dependemos da relação ir bem para que estejamos bem também. Ou seja: ...

COMPLEXO DE ÉDIPO

O que é isso? A gente ouve falar por aí dessa coisa de "menino gosta mais da mãe" e "menina gosta mais do pai". É isso e não é rs. A gente nasce desejando ser alimentado e sentir o calor daquela pessoa que cuida de nós desde o início. É tudo praticamente instintivo, já que mal balbuciamos sons e somos totalmente dependentes de uma outra pessoa para sobreviver. Lá pela metade do primeiro ano de vida, começamos a perceber que somos um corpo separado daquele que nos amamenta, normalmente a gente é posto na frente do espelho e ouve: "olha neném, que lindo, olha..." e muitas outras frases que, junto com as atitudes de quem nos cuida, nos fazem perceber que somos alguém diferenciado. Isso vai amadurecendo até que lá pelo segundo, terceiro ano de vida, a gente começa novos processos de identificação com o pai, com a mãe, e isso é tão complexo e tão de cada um que vários fatores incidem nisso. O menino começa a perceber que a mãe não é só sua, tem que divi...

O INCONSCIENTE E AS ESCOLHAS AMOROSAS

As nossas primeiras referências de vida são os pais ou quem quer que tenha estado nessa função: avós, tios, mães e pais de criação (algo muito brasileiro), madrinhas e padrinhos, enfim...pessoas que estiveram conosco nos primeiros momentos de vida ou durante a infância e que fizeram em nós as primeiras marcas de amor e de dor. Dessa relação, fica em nós uma espécie de imagem psicológica gravada dessas primeiras impressões. A psicanálise tomou de Jung o termo e conceito chamado "Imago" para falar sobre essa confluência de características psicológicas e mesmo traços físicos, trejeitos, toques, cheiros, maneirismos dessas figuras que nos marcam desde a tenra infância e acabam por se tornar algo que buscamos em todos os outros relacionamentos que teremos ao longo da vida. Mesmo que tenhamos sido criados por pai e mãe, às vezes um avô ou uma tia muito próxima acabou sendo, por uma questão de identificação nossa, mais referencial do que os pais mesmo. Um irmão ou irmã mais velh...

RESILIÊNCIA..ATÉ QUANDO?

Até quando? A partir de que momento a resiliência pode virar uma violência contra si mesmo? Muito presente em "textão" de rede social hoje, a resiliência é a capacidade que temos de seguir em frente após uma adversidade. É também uma capacidade de se adaptar a contextos emocionais inicialmente estranhos ou dolorosos. Vivemos uma época de festejar a resiliência e dar aos resilientes troféus de participação na vida. Veja bem, seguir em frente depois de uma tempestade é bom, curar-se depois de uma enorme decepção também. Conseguir sobreviver aos infortúnios é algo a se comemorar. Mas qual o limiar entre ser resiliente e se violentar? E se estamos pagando de resilientes mas apenas engrossando o casco e por dentro, bem no fundo, ressentidos com a vida e com os relacionamentos? Isso é algo para questionarmos a nós mesmos. Porque valores culturais também viram moda, e o discurso da resiliência parece estar seguindo por esse caminho. Não se trata aqui da apologia ao fracas...

RELACIONAMENTO NOS TEMPOS ATUAIS: AINDA É POSSÍVEL?

Receber amor é a coisa mais desejada pelo ser humano. Desde muito pequenos nos identificamos às figuras de pai e mãe ou quem quer que faça essa função pelo amor que recebemos, ou mesmo pelo amor negado. Se recebemos, nos sentimos plenos e felizes; se nos é negado, podemos passar uma vida esperando alguma migalha de amor e fazemos jogo com isso ou mesmo podemos repetir o papel daquele que nega amor. De toda forma, o modelo familiar tem coordenadas culturais que dão muito do tom do que se chama de amor. O amor romântico não existiu até o século XVII, por exemplo. Casamento era negócio entre famílias. Hoje estamos passando por profundas transformações na configuração cultural dos relacionamentos amorosos. Nas gerações de nossos avós e pais, as mulheres eram submetidas a casamentos infelizes sem poder se separar porque a sociedade as consideraria meretrizes. Poucas furaram esse bloqueio e pagaram o preço por isso. As meninas eram ensinadas desde a tenra infância (arrisco dizer que em...