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LUTO(S)

O "S" indica que nessa vida muitas coisas morrem: lugares, relacionamentos, fases e pessoas mesmo. Por isso o luto em psicanálise é um tema recorrente. Abordado desde a primeira vez que uma pessoa entra no consultório e senta na poltrona ainda de frente para o analista para fazer sua primeira entrevista. Lidar com perdas não têm receita: cada um age e reage à sua maneira diante de algo que  se foi pra sempre. E normalmente a gente se desespera, não quer deixar ir, se agarra ao passado. Não fazer o luto é isso: manter-se apegado a uma lembrança, a um fantasma. São muitos lutos desde a infância: o desmame, seja do peito ou da mamadeira, a chegada de um irmão ou uma irmã que tira nosso trono do preferido da mamãe e do papai, a entrada na vida escolar onde a pessoa que nos cuida não fica mais full time com a gente, a adolescência,  o abandono desta para entrar na vida adulta e por aí vai. A quantidade e a intensidade de lutos que se faz ou se precisa fazer é de cada um, não...

O OLHAR E A SEXUALIDADE

O olhar faz parte da sexualidade, termo esse que, para a psicanálise, é muito mais abrangente do que o ato sexual. Olhar e ser olhado. Olhar o nosso próprio corpo e o corpo alheio. Desde bebês, quando sugamos o seio da nossa mãe ou seu substituto, a mamadeira, instauramos instintivamente o nosso olhar para alguém fora de nós. Esse "olhar - ser olhado" pode imprimir marcas de bons afetos ou de estranhamentos e angústias que podem ter gerado traumas, e isso se diferencia pela história de vida de cada sujeito. O que se ouviu ou viu sobre isso na tenra infância com certeza influenciou atitudes em relação a si mesmo, ao próprio sexo e o sexo do outro. Como assim? Pode ser que você tenha sido surpreendido ao entrar no quarto dos seus pais despretensiosamente quando eles esqueceram de fechar a porta e viu algo que te fez pensar algo ruim sobre isso. Porque pode ter sido flagrado e ter sido repreendido, o que, para alguns, não causa dano algum em nível psíquico; mas pode ser que ...

A CULPA É SEMPRE DA MÃE?

A psicanálise responsabiliza cada um por sua vida, suas escolhas e sintomas. Então não, não é tudo culpa daquela que te carregou no ventre por quase um ano: deixe sua pobre mãe fora dessa. Uma pergunta de Freud que virou frase de rede social resume bem isso: "Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?". É bem isso. Por isso às vezes é tão difícil fazer análise: porque a gente dá de cara com a nossa responsabilidade a cada sessão. O psicanalista não te dá dicas de vida nem receita. Ele basicamente te devolve em forma de pergunta algo que você mesmo disse, mais ou menos naquele estilo "tudo o que você disser sera usado contra você", no sentido de que a gente se desvela pela fala, faz um ato falho, um lapso de linguagem na frente do psicanalista. E tem os sonhos... putz! Parece que ressuscitam das tumbas do nosso inconsciente e ficam muitas vezes insuportáveis durante um processo de análise pessoal. Não adianta culpar os outros nem o complexo ...

O SUJEITO E A FALTA

A psicanálise se presta a apresentar a pessoa à sua própria falta e sua ausência de sentido. Todos temos essa falta que nos constitui, a qual Freud se referia como um objeto perdido a ser encontrado, sentido a ser desvendado. Lacan foi além e situou o sujeito como dividido pelo inconsciente e faltoso desde sempre, embora o desejo humano propicie encontrar durante a vida vários objetos que podem dar uma sensação temporária de completude, mas que logo volta ao estado original da falta. Porque a falta é, ela não está. Ela nasce com a gente. Cada pessoa vai perceber essa insatisfação original de uma maneira, e a psicanálise pode entrar nessa seara no intuito do sujeito se deslocar pela vida mesmo nessa falta. Ela não precisa necessariamente virar uma doença ou um transtorno, embora não seja fácil para nós lidar com ela. Não queremos nunca que haja falta, mas assim mesmo ela se apresenta em toda sua plenitude, na solidão de nós mesmos. O que nos resta é aprender que ela está ali, mas não...

O TEMPO DE CADA UM

Muito cedo ou muito tarde? Qual o tempo certo de processar o que nos acontece e seguir a vida? Julgamos muitas atitudes das pessoas pelo tempo que achamos correto para que elas façam tais coisas. Uma pessoa querida fica viúva ou se separa de alguém que ela amou profundamente. Aparece 6 meses depois com outra pessa e nossa cara não esconde o "já????", como se isso nos dissesse respeito ou como se soubéssemos o que se passa dentro dela. Outro passa pela mesma situação e depois de 5 anos ainda esta sozinha, e vamos bem intencionadamente perguntar se não está na hora da pessoa se refazer. O ponto aqui é algo de que Lacan diz fazer parte de um processo de análise mas que podemos fazer uma analogia para a vida: o tempo não é cronológico, ele é lógico. E, sendo assim, esse tempo de cada indivíduo passa por três fases: instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir. Isso varia absurdamente de uma pessoa pra outra. A pessoa vive a situação, elabora e segue. Important...

A análise como uma escolha.

Muitas vezes não conseguimos controlar o mal que nos habita. A raiva tem seu ápice, outras vezes a tristeza. Fazem parte de nós, porque somos seres sombrios muitas vezes. O que pode ser fecundo quando se consegue comunicar que não se está bem, assim como fazer uma breve retirada do espírito de cena, no sentido de procurar se acalmar e ouvir o que o interior tem a dizer. Tem horas que ele é duro. Pois podemos estar insuportáveis pra aqueles que nos amam. É necessário respeitar também o outro e segurar a nossa insatisfação. Porque no fundo ela é com a gente mesmo. Por não saber lidar com a vida que escolhemos e por não ter conseguido realizar certas coisas, por não nos sentirmos queridos, desejados. Então cabe trabalhar pra que seja canalizado para o caminho da sublimação. Para o nosso próprio bem. Pois os dias tem sido negros. O mundo e nossa própria vizinhança recheados de notícias ruins, desgraças,  mortes, injustiça. Não é fácil se manter bem com essa vibe gigantesca. Aguentar ...

O que faz um psicanalista?

Digo que ele começa fazendo mais. Pega na mão do paciente (metaforicamente) e vai com ele a seu destino mostrando as paisagens do percurso. O destino, antes incerto, escuro e assustador, tende a ir se modificando à medida que o analisando se compromete e se esforça em ver os detalhes das paisagens pelo caminho. A viagem começa numa estação conhecida, mas que não era percebida em suas especificidades anteriormente. O analisando vê que uma parede enorme, por exemplo, na verdade tinha uma porta que ele não via, mas estava bem na sua frente todo aquele tempo. Mas quem vê são seus olhos, não os do analista. O que este faz é apenas sugerir que ele olhe novamente para aquele muro e diga o que vê. Às vezes são necessárias várias novas miradas para que as ranhuras, o desgaste do concreto e a porta inédita no imaginário sejam vistos. Conforme o analisando vai enxergando as particularidades do percurso, ele vai soltando, sem perceber, a mão do analista. Já se move no ambiente sem precisar de ...