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A ILUSÃO DO NINHO CHEIO

A gente que é mãe de mais de um carrega umas ilusões. Como a gente passa praticamente duas décadas com a "casa cheia e barulhenta", isso vira um padrão pra gente. E a gente acha que será assim indefinidamente, e não aprende a viver no silêncio. A gente também acha que os filhos serão sempre próximos uns dos outros, os melhores amigos. Pode ser e pode não ser. Esquecemos que também existe ciúme, diferença enorme de temperamentos, do outro ser o preferido, e isso ao longo da vida pode não deixar nascer entre eles a amizade inabalável que a gente romantiza. A gente  acha que sempre nos pedirão orientação, conselhos sobre o que fazer na e da vida, e a verdade é que a vontade de autonomia na maioria das vezes fala mais alto, e podemos nos sentir esquecidos quando na verdade é a vida seguindo o seu curso. Mas isso não quer dizer que a gente não sofra, porque comeca um período de adaptação que a gente não solicitou, o de como começar a viver sem eles. A gente tem  a ilusão de qu...

A DOR DE VIVER

Esconder de nós mesmos a dor de viver nos torna cínicos, superficiais e maléficos à propria subjetividade. Sendo cínicos e superficiais, ficamos incapazes de estabelecer canais de palavra plena com qualquer habitante dos quatro cantos. A dor de viver é tão real que dói no real do corpo. Queima o peito, sente-se a alma dilacerando. Mas não se trata de nos tornarmos reféns de uma algoz que nos esmaga, mas de saber reconhecer cada vez que a sua forma de dor furacão se aproxima e, sim, se apodera de nossas forcas e capacidades de levantar momentaneamente. A dor de viver é tão viva quanto a própria vida, e é ela quem sinaliza que não estamos mortos, mas por uns momentos apenas agonizantes pelo vazio e pelo desencontro. Sentir essa dor é estar vivo, é fazer com que ela seja a alavanca para que a vida aconteça de forma sublime...sublimação da dor em ato de viver. Psicanálise pura e simples assim. Crica Viegas

AUTO EXÍLIO EMOCIONAL

Apesar do nome parecer rebuscado, esse é nada mais do que o momento que nos recolhemos em busca de nós mesmos e daquilo que somos ou mascaramos. A palavra exílio na nossa língua portuguesa é conhecida pela conotação negativa, pois tem a ver com sair do próprio país por conta própria ou obrigado por questões políticas. Mas não deixa de Ter um pouco a ver com isso o auto exílio emocional: por questões de não conseguimos tantas vezes lidar com situações e pessoas que fazem brotar nosso lado vil e encrenqueiro, a gente pode escolher se retirar. E esse se retirar pode ser um comentário que não se faz na rede social na hora em que a discussão esquenta, pode ser sair de perto de uma conversa tomada por fofocas e intrigas, e pode ser um período em que a gente se retira fisicamente de relacionamentos, sejam familiares ou de amizade ou amorosos pelo simples fato de que temos esse direito. O mundo atual das redes sociais não admite que a gente suma sob pena de sermos  rapidamente esquecid...

A CULPA É SEMPRE DA MÃE?

A psicanálise responsabiliza cada um por sua vida, suas escolhas e sintomas. Então não, não é tudo culpa daquela que te carregou no ventre por quase um ano: deixe sua pobre mãe fora dessa. Uma pergunta de Freud que virou frase de rede social resume bem isso: "Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?". É bem isso. Por isso às vezes é tão difícil fazer análise: porque a gente dá de cara com a nossa responsabilidade a cada sessão. O psicanalista não te dá dicas de vida nem receita. Ele basicamente te devolve em forma de pergunta algo que você mesmo disse, mais ou menos naquele estilo "tudo o que você disser sera usado contra você", no sentido de que a gente se desvela pela fala, faz um ato falho, um lapso de linguagem na frente do psicanalista. E tem os sonhos... putz! Parece que ressuscitam das tumbas do nosso inconsciente e ficam muitas vezes insuportáveis durante um processo de análise pessoal. Não adianta culpar os outros nem o complexo ...

CRISE DE PÂNICO: UM RELATO

Meu mar, que raramente é liso e calmo, começa a se agitar de uma forma que já sei como será. Sinto as ondas vindo, formando-se cada vez mais fundas e fortes. A vontade de me debater para me salvar toma conta dos meus pensamentos, que ao mesmo tempo são invadidos por um esperar a sequência de ondas acalmar. Me deixo ir. Muitas reviravoltas nauseantes em poucos minutos. A falta do que se agarrar nessa hora se intensifica ao quase insuportável. Entro em estado de choques ininterruptos com o movimento das ondas que parecem não ter fim. Parece que o peito vai explodir tentando encontrar o ar. Uma vaga mais gigantesca me atinge. Outras menores também. E vou sendo direcionada a um patamar onde já sinto o chão de areia nos pés, mas ainda estou sem forças para firmá-los. A sequência delas após aquela gigantesca finalmente me joga na praia. Consigo enfim sentir minha respiração. Desordenada. Engasgada ainda. Mas vai acalmando. Agora escuto mais de longe o bater das ondas. O suor d...

RESILIÊNCIA..ATÉ QUANDO?

Até quando? A partir de que momento a resiliência pode virar uma violência contra si mesmo? Muito presente em "textão" de rede social hoje, a resiliência é a capacidade que temos de seguir em frente após uma adversidade. É também uma capacidade de se adaptar a contextos emocionais inicialmente estranhos ou dolorosos. Vivemos uma época de festejar a resiliência e dar aos resilientes troféus de participação na vida. Veja bem, seguir em frente depois de uma tempestade é bom, curar-se depois de uma enorme decepção também. Conseguir sobreviver aos infortúnios é algo a se comemorar. Mas qual o limiar entre ser resiliente e se violentar? E se estamos pagando de resilientes mas apenas engrossando o casco e por dentro, bem no fundo, ressentidos com a vida e com os relacionamentos? Isso é algo para questionarmos a nós mesmos. Porque valores culturais também viram moda, e o discurso da resiliência parece estar seguindo por esse caminho. Não se trata aqui da apologia ao fracas...