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A menina que rabiscava livros

Muito introvertida. Silenciosa. Tanto que quem a conheceu depois custa a acreditar. Mas a verdade é que ela não queria viver nesse mundo. Só no da sua imaginação. Que era nevoada e cinza. Ela amava livros. Mas não os tinha. Sua vontade era ler todos os que encontrasse. Mas a sua busca continuou por muito tempo ainda. A biblioteca pública da cidade do interior era o que bastava para trazer algum sorriso àqueles lábios que pouco se mexiam. Não queria gastar palavras, pois era a única coisa que tinha dentro de si. Não havia bonecas, roupas, mimos. Palavras eram o seu bem mais precioso. Por isso ela as guardava para si. As tardes na biblioteca eram libertadoras. Ia desde dicionários a livros de História e romances. Não possuía preconceito intelectual. Seus olhos devoravam textos como bebês famintos, e o que conseguia digerir passava para o caderno a lápis. As outras pessoas a olhavam escrever porque era canhota e possuía aquele maneirismo estranho dos canhotos para pegar no lápis e corr...

A psicanálise é elitista?

Uma das coisas que ouço com alguma frequência é de que o tratamento psicanalítico é para quem tem alto poder aquisitivo. Normalmente os menos favorecidos têm acesso pela via de clínicas - escolas situadas em universidades, mas em consultório particular é mais difícil.  O acesso realmente fica mais restrito por causa do valor. A Psicanálise de base freudiana e lacaniana, essas duas vertentes com as quais tenho vivência, tem historicamente uma postura mais distanciada do social. O tratamento visando àquele sujeito único, o que está correto de acordo com a prática psicanalitica, parece que, de tanto individualizar esse sujeito, acaba por retirá-lo do contexto social em que vive. A Psicanálise não tem se ocupado tanto quanto deveria, penso eu, do contexto de vida do paciente que vai para além do familiar ou dos laços mais próximos. Não estou aqui pregando um contrassenso; a escuta analítica é, de fato, do sujeito, do que este sujeito carrega em si, de como o real do corpo simboliza a...

A análise como uma escolha.

Muitas vezes não conseguimos controlar o mal que nos habita. A raiva tem seu ápice, outras vezes a tristeza. Fazem parte de nós, porque somos seres sombrios muitas vezes. O que pode ser fecundo quando se consegue comunicar que não se está bem, assim como fazer uma breve retirada do espírito de cena, no sentido de procurar se acalmar e ouvir o que o interior tem a dizer. Tem horas que ele é duro. Pois podemos estar insuportáveis pra aqueles que nos amam. É necessário respeitar também o outro e segurar a nossa insatisfação. Porque no fundo ela é com a gente mesmo. Por não saber lidar com a vida que escolhemos e por não ter conseguido realizar certas coisas, por não nos sentirmos queridos, desejados. Então cabe trabalhar pra que seja canalizado para o caminho da sublimação. Para o nosso próprio bem. Pois os dias tem sido negros. O mundo e nossa própria vizinhança recheados de notícias ruins, desgraças,  mortes, injustiça. Não é fácil se manter bem com essa vibe gigantesca. Aguentar ...

Ira: dias de luta...cadê os dias de glória?

Verdade que ninguém é perfeito. Mais verdade ainda que a gente perde a paciência com pessoas, situações e coisas. Até com os pets tem hora que "o bicho pega" (minha gata de 16 anos resolveu fazer cocô e xixi em qq lugar da casa...aff). Se acreditasse em inferno astral acho que poderia estar nele. Mas as pessoas é que estão cada vez mais idiotas mesmo. A gente  chega no caixa de qualquer lugar, dá bom dia, boa noite, whatever e a criatura nem o-l-h-a na nossa cara. Meu cumprimento fez até eco. Cobrador de ônibus idem. Nunca dê dinheiro inteiro porque hj em dia você pode levar um tiro. Na farmácia é capaz de vc precisar de um remédio a mais pra curar o mal estar pela falta de educação do balconista. E por aí vai. No meu caso não é culpa de ninguém.  Estes são só exemplos do que pode dar um start na minha ira. Porque ela faz parte do meu ser. "A ira constituinte do sujeito", vai ser o nome do meu livro de abordagem psicanalítica. Minha analista que o diga. Deve ter ...

Um pequeno retrato nosso

"Nunca um prefeito pensou tanto no coletivo sem fazer concessões. Marta, que também revolucionou o transporte coletivo em sua gestão, fazia concessões como a construção do túnel Rebouças, por exemplo. Haddad não. Fez aquilo que se faz em toda cidade grande de primeiro mundo, criou dificuldades para os carros e investiu nas bicicletas. Mas como convencer pessoas que foram criadas com a ideia de que carro simboliza o ápice do sucesso e que entram em prestações eternas para ter conforto e demonstrar algum tipo de ascensão social a andar de bicicleta? Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra uma bicicleta andando mais rápido do que um carro na Marginal Pinheiros. Em outros lugares do mundo, isso faria as pessoas largarem o carro. Aqui, muda-se de prefeito". O texto completo está  aqui . Peguei esse trecho pois acho que ele resume bem o artigo, disponível ai pra quem quiser ler. Estava andando pelo facebook e me deparei com essa matéria falando sobre a provável derrota...

Voltando ao normal...será?

Depois de um dos quinze dias mais acelerados dos últimos anos parece que finalmente meu segundo semestre começa. Reformei minha velha casa (só por dentro ainda) e me mudei há pouco mais de duas semanas. Abri meu próprio consultório. Mas antes de tudo se concretizar eu esperei. Esperei. Esperei muito. E esperar pra ansioso é o mesmo que passar fome pra quem tá de dieta. Um sacrifício. Infernal. Esperei intensamente a volta do meu filho que foi fazer intercâmbio na Alemanha em fevereiro de 2014. Ele já é adulto. Tem 23 anos. Meu primogênito. Mas sou uma mãe que engole a cria. Lacan  que me ature. Mãe sempre quer filho pro perto. Não sou diferente de ninguém. Tô falando das mães de verdade, não de quem tem filho e terceiriza por vontade própria tudo o que diz respeito à criança. Sei que tem muitas que precisam terceirizar. A estas minha homenagem, pois são heroínas em dupla jornada de vida. Bom, mas tava falando da espera. Esperei muito por esse menino. Na minha cabeça ele não...

Dia dos Pais

Esse é o fim de semana dos pais. Quem tem o seu, por favor aproveite. O meu não se deixou ser aproveitado pelos filhos. Não quis. Isso foi o que pensei por anos. Mas ele não pode. Alcoólatra desde os 13 anos. Dá pra imaginar o estrago que isso faz na vida de um ser humano e sua família. Mas a verdade é que como filho a gente só se sente rejeitado, na infância não tem como elaborar isso nem ter nenhuma compreensão da profundidade do problema. E por não deixar a gente se aproximar ele sempre foi sozinho. Herdei essa forte sensação de solidão. Filhos de pais alcoólatras têm poucas lembranças da infância. Pelo menos das boas. Não têm as boas recordações de aniversário, Natal, Páscoa...Essas datas são sempre um martírio pois a pessoa se embriaga e estraga a festa. Ou nem acontece a festa se a pobreza material não permite nem a comida do dia a dia, que dirá festas. Filhos de pais alcoólatras acham todas as garrafas de bebidas lindas. Talvez pra tentar entender a sedução que aquilo ex...