Nem toda tristeza é depressão.

Mas toda depressão é um estado de tristeza desmedida, acompanhada de uma falta de
desejo para a vida.
Um acontecimento dramático pode desencadear uma tristeza e não propriamente uma depressão. Essa pode acontecer sem nenhum "gatilho" aparente ou com ele, como a morte de alguém , uma separação, ou até mesmo uma grande mudança.
O fato é que o limite é tênue e se tem classificado a tristeza, que é parte estruturante da vida, como um mal. Numa sociedade hedonista como a nossa, onde o prazer e a felicidade não têm antônimos, o efeito tem sido exatamente o contrário: a busca desmedida pela plena felicidade está enlouquecendo as pessoas, e a não realização dessa "meta" em todos os níveis da vida tem nos adoecido.
O fato é que se há alegria na vida, também há a tristeza. Esta é fundamental para que a gente desenvolva qualidades como resiliência, empatia e senso de realidade.
A vida está, de fato, muito difícil. A corrida pelo dinheiro tem nos levado a estados de esgotamento que podem desencadear em qualquer pessoa a ausência vontade total de sair da cama e fazer suas atividades diárias. Quando essa indisposição para desejar a vida vira um estado constante, aí sim podemos ventilar a possibilidade de uma depressão. Mas a tristeza, por mais forte que seja, como num luto, por exemplo, pode passar e nos deixar mais fortes. A depressão não. Ela mina nossas energias e vontade de viver continuamente, mesmo que não tenhamos pensamentos suicidas. É uma dor insuportável que vem acompanhada de tristeza (sim) profunda e limitante das atividades mais rotineiras.
Ou seja, a tristeza existe e vamos ser acometidos por ela se estamos vivos. Os poetas sempre falaram dela lindamente. Inspirou textos belíssimos,  pinturas deslumbrantes, histórias inesquecíveis. Tristeza e depressão são muito parecidas e têm confundido os melhores e mais bem intencionados profissionais que cuidam da alma, como psiquiatras e terapeutas das mais variadas abordagens. O discurso da depressão inundou a vida e, infelizmente, com intuito mercadológico, para entorpecermos com fármacos nossa tristeza estruturante, transformando-a em patológica indiscriminadamente. Se ouvíssemos mais os sinais que a tristeza que faz parte da vida nos dá e que temos ignorado, muitos de nós não estariam de fato tão deprimidos.

Comentários

Aninha disse…
A vida parece estar tão corrida, que não dá tempo para perceber a oportunidade que a tristeza pode ser de crescimento.
Lindo texto
Linda reflexão
Unknown disse…
Sim. O amadurecimento como sujeitos da nossa vida passa também pela tristeza. E quando a negamos veementemente estamos no fim das contas nos fazendo mãos mal do que outra coisa. Obrigada por ter lido.
Ed Zaccaron disse…
Excelente texto!

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